sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014



Eu escrevo porque todos os dias um anjo com as mãos em chamas ardentes esmaga meu coração e me mata. Cansei de morrer todos os dias. Então, escrevo. Eu escrevo para resgatar as asas que me roubaram. Escrevo para anunciar que meus olhos estão à venda, posso até trocá-los pela vista de um par de nuvens. Escrevo porque não sei escrever. Então escrevo. Escrevo porque há árvores na minha janela, e há vento, há céu, e há solidões; essas árvores foram outrora plantadas nas margens dos rios que correm em minha alma. Escrevo porque um dia alguém sussurrou palavras inauditas em meus ouvidos. Então, fiquei surda, por isso escrevo. Foi esse teu silêncio que me ensurdeceu. Observo um pássaro alçar voo, não lhe escuto o som, há apenas o bater de asas mudas. Escrevo porque não tenho mais o que fazer, eis-me inútil, recusei-me a produzir, neguei o convite para ser a distração de muitos, já não canto, não abro os olhos para a contemplação do mundo. Apenas escrevo aquilo que não sei.

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