sábado, 21 de dezembro de 2013




Em dias de tédio
Procure soletrar ilusões
E levitar por sobre nuvens de anjos
Ou interpretar a música mais incômoda
Para o sangue de seus inimigos
Catar pedrinhas de diamante
Também pode ser um incrível passatempo
Só te peço
Não navegue nas águas profundas
De suas torpes emoções
Se não quiseres atravessar o limiar da devassidão

Álly



Tem algo de não dito nessas coisas vividas
algo de indizível
aquilo que nunca será dito
inexprimível
algo que fica pulsando
entre a flor e o nada
entre o riso e a noite
há algo de silêncio
no pulsar dos dias



Uma seiva brota das profundezas
não há que afugentar os rios
as correntezas interiores
deixar fluir, crescer
espalhar-se como ramagem
até que os frutos se derramem
até as extremidades
até escorrerem para além das margens
estabelecidas no mundo

um fogo cresce e me fragmenta
não há como resistir
deixar viver
como num amém final
sem gritos espantados
sem lamúrias desordenadas
calar, sentir e só

sábado, 15 de junho de 2013





Para sábados ruidosos, haveria teu batom, tua franja, teu sexo...
hoje apenas sábado de monge
intrigado com o barulho do próprio silêncio
 nada há que possa vir te salvar
 nem de paraquedas, nem de lancha
ou supernova a explodir
nada há que seja teu sábado
apenas a expectativa de um sono profundo
durma em paz

quarta-feira, 12 de junho de 2013




a lua é uma bola de fogo, de menta, de anseios
que você pode tocar com os dedos
ou simplesmente com a respiração
experimente esticar a ponta da sua asa quebrada
aspirar a poeira estelar e os ventos anoitecidos
experimente ensaiar voos e quedas
sem medo da repressão interna
dos seus próprios ouvidos
a lua é uma dama graciosamente louca
experimente fazer cócegas em seus pés
e ela se abrirá por inteiro

domingo, 9 de junho de 2013




Procuro sentidos obtusos
Intermináveis afagos nos olhos
Ou alguma palavra quase dita
Um socorro sem nome ao certo
Que invada sítios rentes ao teu olhar
Sinto a cálida e solene resposta
Sem braços e mãos e unhas
Sinto apenas algas entrelaçando desejos

Állyssen









[Arte de Kate McDowell - escultora de porcelana conceitual]

















[Arte - Edouard Manet]


Em noites como essa
Com céu estrelado de sonhos
Deite-se com alguém sobre a relva orvalhada
Sinta o cheiro da grama
E das estrelas grávidas
Volva seu rosto para o lado
E acaricie a companhia predileta
Pois em noites como essa
Todas os desejos
Se realizam por mágica
Ou por simples procura

Álly




sexta-feira, 7 de junho de 2013


 
















[Arte de David Walker]


Quando esperei tua respiração
foi como debulhar ladainhas
inteiras em solidão
de tanto esperar olhares
foi como soluçar sorrisos
gentis, íntimos
da terra brotaram lareiras
crepitações de espinhos
sonhos
permaneci imóvel
quieta entre correntes
nada mais havia
teu amor, e só



Álly



  

terça-feira, 4 de junho de 2013


















[Arte de Liu Yuanshou]


duendes nus
pulam em meu útero
sangramento
sangra
mento
mentiras aladas
dançam em pílulas cor-de-rosa
rosas de plástico
olhos incolores
úteros despedaçados
ao invés de fetos
sem cabeça
coloque o dedo na tomada
a mão no fogo
o sangue mostra o caminho
para a fertilidade
felicidade
líquida
ínfima
íntima
aranhas passeiam
por dentro do meu ventre
tateiam molhadas
escuras
sangra
mente
coloque seu útero
no lugar de seu cérebro
e deixe o duende livre
comandar suas veias

Álly

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Amizade



clã abismal
as bocas tortas das mulheres
destilam sorrisos
dejetos saltam de seus dentes
abraços-punhais
sórdidas gargalhadas
alcançam as nuvens de minha consciência
dão-se as mãos
em círculo
ou seria meia-lua?
os restos estão pendurados
por um fio
tateando a queda
as pseudo fratelli
sensibilidade em mentiras
isso é transcender?
não se iluda
faça o que quiser
evaporo as línguas
nada há que permaneça
por inteiro

Álly

Há um tempo



Ainda há melodias que me matam
com um tiro na cabeça
não há que ser delicada
quando o anjo mau
vier beijar teus lábios
entregue
à melodia
à dança da morte
pois há um morrer em cada nota
não te assustes
com isso que habita em ti
por essa razão, não serás menos feliz
acredite!
há uma doce libertação
em aceitar-te
- esse anjo que te beija -
não serás menos deusa
menos boa, menos bela
apenas serás por inteiro
completamente um ser
em plenitude
havia girassóis nos outros poemas
hoje eles são mais reais
e haverá um tempo
em que eles murcharão
sob o mesmo sol que um dia os acalentou

Állyssen

domingo, 2 de junho de 2013

Hilda Hist







As asas que me deste
se formaram em sulcos
nos ossos de minhas costas
infiltraram meu corpo
quebraram todo fervor
de um pássaro devoto
hoje apenas me resta
deitar-me nas camas alheias

Álly

Nunca entendi


(Águeda - Portugal)


Havia algo de satânico nas entrelinhas de seu riso
tão encantador
hipnotizava
de arrancar deslumbramento
de qualquer desavisado que passasse

em casa, a lembrança penetrou
as membranas
dos pensamentos mais recônditos

nunca entendi qual origem
havia naquele mistério
- riso de lúcifer -
que você desdenhava
nunca entendi o que havia
nas partes íntimas
de sua aberração

Criação




E tu caminhas anoitecida
nas paredes do meu estômago
voas qual borboleta abissal
libélula
há alguma palavra
escondida, escusa, inédita
que revelaria teu rosto
teu nome indizível
as linhas tremeluzindo
nos contornos de tua tez
há algo do vocábulo disforme
esperando o sopro
de tua respiração

Álly

Alentejo




 (Imagem de Alentejo, Portugal)

Explodem nuvens no céu da minha boca
E há estrelas flutuando em meu estômago
Sucumbem delírios em tensa libertação
Quando se pergunta a uma formiga
Qual o motivo de tanta felicidade
Não espere ouvir vozes do além
Apenas o tilintar de taças inescrupulosas
A boca do estômago da formiga
Me devora solene
De quando em quando uma abelha
Um beija-flor, um gato, uma iguana
Não espere escutar cânticos celestiais
Se anjos apenas sibilam ventanias
Entregue-se... renda-se!
Não há ruflar sem souvenir
Cicatrizes súbitas rompem a pele parda
Estrondam as duras sinas de tantos mins
Há cheiro de sangue em minhas cascatas
Ah, como odeio escrever-te, formiga...

Álly

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013





A chuva no meio da tarde
A chuva por dentro dos muros
A chuva me dói na alma
No centro dos absurdos

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013




Procura-se um consolo enluarado
Uma paixão relativamente correspondida
Um amor meio esquecido
Uma fuga a cavalo
Dias febris interrompidos
Soluços inexoráveis

Em que terras solitárias nos perdemos
Em que rios íntimos
Solos débeis
Em que vastidão incompreensível

De colocar a língua toda
Desde a raiz
No poema regado para ti

Em que linhas corrosivas
Sórdidos limites da incompreensão

domingo, 6 de janeiro de 2013


[Imagem do arquivo pessoal de Állyssen - Chapada dos Guimarães]


A verdade é que as formigas do mato não são iguais às formigas da cidade, que vivem errantes na minha cama durante o dia. É que as formigas do mato respiram ar puro, só isso. E nuvens se beijam lentamente no céu quando chega janeiro... Quando você estiver no meio da floresta, se olhar para cima, verá os lábios de nuvens descaradamente pregados. Alguns chegarão até a invejá-las.

e eu já enjoei de escrever isso...